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© os contos da abelha..

escrever ao sabor do vento..

12
Ago21

civilização alfa

Ana de Deus

os contos da abelha
(continuação)
 alfa, pois é a primeira letra do alfabeto grego e significa: início.

despertámos da vida suspensa cinquenta anos mais tarde. a nossa nave estava a ser puxada para dentro do que parecia uma cidade suspensa e a inteligência artificial dos nossos habitáculos seguiu o protocolo de ameaça iminente e despertou-nos. estávamos impotentes perante o que nos estava a acontecer, mas conseguimos entrar no sistema de video daquele colosso e percebemos que era uma das cidades da colonização de Marte.

então abrimos um canal de comunicação audio, identificámo-nos e pedimos que se identificassem. pararam logo de puxar a nossa nave e enviaram-nos um mapa da cidade, para acoplarmos ao seu hospital. tinham scanerizado a nossa nave e detectaram ovos em criopreservação. os humanos vindos de Marte eram infertéis e os nossos ovos eram a sua última oportunidade de preservar a espécie. a nossa anatomia fascinava-nos, mas não podíamos correr riscos.

nós não sabíamos se eles tinham sido expostos a algum vírus que o nosso organismo não estava imune pelo que optámos por não interagir directamente, afinal éramos os únicos humanos férteis. em conjunto encontrámos uma solução, com robots que levavam os nossos ovos para o laboratório do hospital, sem nunca entrarem na nossa nave. sentimos que tinhamos de novo um propósito e tinhamos longas conversas através da nossa presença holográfica.

a cidade era enorme e a população estava a envelhecer. parte das mulheres estava em vida suspensa na eventualidade de conseguirem curar a infertilidade. despertaram-nas por fases após a confirmação de, em cada grupo, estarem grávidas graças aos nossos ovos. restava esperar para sabermos as alterações que a vida em Marte tinha feito ao adn daquelas mulheres e como nasceriam os bebés de humanos hermafroditas.

17
Jul21

a mulher e o homem alfa

Ana de Deus

a mulher e o homem alfa

 

quando fui aceite para ser a última terrestre em órbita no planeta, a raça humana estava quase extinta. a maior parte da Terra estava radioactiva, um pequeno grupo de cientistas em que me incluía, sem ninguém entender como, continuávamos sem um grama de radioactividade. construímos dois pequenos habitáculos, com uma estufa e um armazenamento minucioso de sementes biológicas, cada uma. fomos escolhidos por sermos os mais novos e aptos no grupo. um homem e uma mulher. ambos mestiços. a derradeira esperança de continuação da raça.

cada um de nós com o adn de todas as variantes humanas. éramos a mulher e o homem alfa, pois é a primeira letra do alfabeto grego e significa: início. o foguetão que nos colocou no espaço foi criado com os fundos necessários para pôr um satélite em órbita para medir a radioactividade do planeta e, de facto, esse equipamento fazia parte do exterior das duas pequenas naves espaciais. não ficámos muito tempo entre a núvem de satélites e de destroços pois as bombas atómicas continuavam a ser lançadas na Terra numa insanidade apocalíptica.

a estratosfera estava coberta de cinzas radioactivas e nós precisávamos da luz solar para as nossas hortas e para termos electricidade. comunicávamos um com o outro diariamente e estávamos preparados para rumar até à órbita do planeta Vénus. as nossas naves estavam equipadas para essa proximidade do sol. com a vantagem de que um dia venusiano equivale a cento e dezasseis dias e dezoito horas terrestres. antes de decidirmos a viagem, ponderámos o facto de o nosso sol estar em fim de vida e que este sistema solar se tornaria um enorme buraco negro.

as nossas naves eram manobradas por inteligência artificial, mas nós tinhamos a última palavra. optámos em viajar até ao sistema solar mais semelhante ao nosso. acoplámos os dois veículos, que eram a nossa casa, e deixámos o vaivém conjunto seguir as directrizes da viagem. ajustando sempre a trajectória de modo a termos energia solar para alimentar a vida nos habitáculos e nas estufas. três anos mais tarde, quase a chegarmos ao nosso destino, vimos a explosão do sol, todo o sistema solar que conhecíamos desapareceu no vazio. senti-me orfã.

ainda bem que decidimos unir as duas naves, não suportaria este momento se nos perdêssemos um do outro. os ventos que se seguiram à explosão fizeram-nos andar à deriva durante umas semanas, mas acabámos por chegar mais cedo ao destino. entrámos em órbitra de um planeta azul. usámos os satélites, que tinham servido para monotorizar a radioactividade, para fazermos um reconhecimento detalhado das superfícies de água e das superfícies de terra. para nosso grande espanto fotografámos crop circles enormes.

 

crop circles

 

a inteligência artificial estava programada para nos proteger e este planeta, apesar da cor e dos desenhos no solo, tinha maremotos e lava escaldante a escorrer para a superfície de água. a superfície terrestre era um décimo da aquática e estava constantemente a arder e a ser submersa pelas vagas dos maremotos. a nossa nave conjunta só tinha capacidade para nós os dois. nenhum de nós o dizia, mas sentiamo-nos presos e sem propósito. para pouparmos oxigénio só estávamos acordados para o estritamente necessário.

tivemos de reajustar a órbita, distanciando-nos do planeta e aproximando-nos do seu sol. sem percebermos como, entrámos em órbita com esse pequeno sol. éramos um micro-planeta de dois hermafroditas. já há algum tempo que estávamos a realizar a criopreservação dos nossos ovos. óvulos fecundados pelos nossos espermatozóides. activámos o programa de preservação dos tripulantes e entrámos nas câmaras de oxigénio e outros quejandos, que nos manteriam em vida suspensa, por tempo ilimitado.

(continua)

12
Jul21

desafios | o meu conto de natal

Ana de Deus

era uma vez um casal que celebrava o natal indo de porta em porta para distribuir as prendas que tinham passado o ano a manufacturar para as crianças. deus na sua eterna magnificência, sabendo que este era o paraíso para estes dois, criou um reino paralelo ao humano onde eles poderiam continuar a sua missão com a magia dos duendes e das fadas. assim nasceu o pai natal. os duendes construiram o trenó e pediram ajuda às fadas para fazerem as renas voar. o número de ajudantes cresce de ano para ano. assim nasceu a multinacional chamada pólo norte.

desafio lançado pela Isabel AQUI

o meu conto de natal

HO! HO! HO! DESAFIO PROPOSTO PELA QUERIDA ISABEL 🎅🤶

 

numa meia-noite qualquer, nevou no Baixo Alentejo. o Pai Natal veio passar férias na costa vicentina e, como não havia aviões para o Pólo Norte, por causa da pandemia, era preciso magia natalícia para os Elfos, as renas e a Mãe Natal entrarem no nosso país em segredo. vieram todos no trenó, prontos para criar uma oficina mágica, numa praia deserta, numa dimensão paralela onde os dias são sempre amenos e ninguém adoece. entretanto, os aldeões tinham por hábito ir ver o mar e algo os direccionava para aquela praia.

voltavam para casa sempre felizes e rapidamente começaram a constatar que os doentes curavam-se quando visitavam aquela praia. esta afluência em nada alterava a dimensão paralela em que o Pai Natal vivia. era a magia natalícia em acção. a aldeia era pequena e um pouco isolada, por isso mais ninguém sabia e os aldeões compreenderam que era assim que devia ser. nos dias de sol, em que a meteorologia era profícua, juntavam-se todos para piqueniques em grupo, à hora de almoço.

alguns estavam em teletrabalho, mas a maioria vivia da terra e da hospedagem durante os meses de Verão. a pouco e pouco a aldeia tão desligada entre si, começou a tornar-se uma família muito especial, unida pelo carinho e cuidado uns com os outros. o amor entre todos fez a aldeia elevar-se a uma dimensão paralela e à meia-noite do dia vinte e quatro de dezembro todos vimos um trenó aparecer no ar e desaparecer num flash enquanto se ouvia HO! HO! HO! estávamos todos na praia para a consoada. 

todos os anos o Pai e a Mãe Natal convidam os de coração puro para os ajudarem na oficina como Elfos. eu estava na aldeia a ajudar na confecção da refeição. fazíamos o que era necessário em perfeita harmonia. uma vez na oficina, os Elfos podem ficar lá para sempre.

08
Jul21

Beatriz e Aladino

Ana de Deus

era uma vez..

 

quando Beatriz e os pais chegaram à aldeia, os vizinhos trouxeram-lhes comida enquanto eles preparavam a casa para ser um porto de abrigo para a família. quando terminaram de arrumar tudo, convidaram os novos amigos para um churrasco no jardim das traseiras. a menina era tímida, mas depressa as mais extrovertidas a fizeram sentir bem-vinda e ela tornou-se mais espontânea. todas adoravam visitar a casa da avó da aldeia, pois tinha muitos animais de espécies diferentes e podiam brincar com eles.

todas as crianças tinham um animal de companhia que a avó lhes emprestava. quando ela finalmente conheceu Beatriz, observou e disse pensativa: tu precisas de um hamster! a menina não sabia que animal era mas ficou muito feliz pela confiança. só que a avó ainda tinha de levar Beatriz à cidade, para descobrir que hamster queria brincar com a menina. os pais hesitaram uns minutos até que a mãe disse: vamos as três no meu carro. e todos relaxaram. a avó pediu desculpa por não os ter visitado antes.

no dia seguinte dirigiram-se à cidade. a mãe estacionou o carro perto de uma árvore tão antiga que só a própria sabia quanto. a avó pediu para darem as mãos e confiarem nela. tinham de correr para entrar na árvore. assim fizeram e entraram no mundo dos elfos. quando viram Beatriz, celebraram a sua vinda com uma dança divertida, em que as três foram convidadas a participar. a avó aproveitara a viagem para trazer um canito doente. voltou a comer cardos, explicou. acho que ele quer ficar aqui convosco.

os elfos chamaram o ancião e este massajou a barriga do canito com magia cristalina e os cardos e as pedras sairam todas pela boca. só então deu as boas-vindas às humanas. olhou para a avó e disse: concordo contigo, ele quer ficar connosco. pediu-lhes que o seguissem, entrando num elevador transparente, com detalhes de arte nova. temos de ir ao mundo dos hamsters, explicou piscando o olho a Beatriz. vais adorar minha querida. e o elevador desceu vários mundos envoltos em névoa.

quando chegaram ao reino dos hamsters era como se o sol estivesse a nascer. o ancião pediu um momento com o hamster mais velho de todos e apresentou-lhe a menina. este encostou a cabeça na mão de Beatriz e disse: estávamos à tua espera. a menina abraçou-o e perguntou: onde está o meu novo amigo? o mais velho de todos explicou: ele é muito tímido, vais ter de o cativar primeiro. Beatriz sorriu, olhou em volta e viu logo qual era o seu novo amigo. aproximou-se devagar e disse: olá!

posso chamar-te Aladino? podes, disse o hamster muito baixinho. posso chamar-te Beatriz? a menina riu e explicou que esse era o seu nome. e o hamster disse que o nome dele era deveras Aladino. e riram os dois, para gaúdio da avó e da mãe. Beatriz pensou em voz alta: todos os meus vestidos têm um bolso no meio, agora percebo que é para andares sempre comigo, protegido. Aladino ponderou a descoberta e indagou: posso experimentar? claro que sim! exclamou a menina, aproximando-se do seu amigo.

o tímido hamster saltou para dentro do bolso e gritou: é perfeito! e posso guardar aqui as nozes e as sementes que quiser que nunca vou ter fome. e eu vou andar sempre com uma garrafa de água para nunca teres sede, prometeu a nova amiga. e ficaram todos em silêncio. todos os hamsters e humanas ficaram em silêncio à espera do desfecho. finalmente Aladino exclamou: posso ficar aqui? gosto tanto desta nova casa! o mais velho de todos sorriu e disse: está na hora de vos enviar de volta à árvore. e as três despertaram dentro do carro.

só que havia algo que as impedia de crer que tinha sido um sonho. Beatriz e Aladino conversavam animadamente e as três entendiam o que ele dizia. também os entendes? perguntou a avó, ao que a condutora disse: sim mãe, eu prometi que voltava um dia. minha rica filha! exclamou a avó com um imenso sorriso.

(continua)

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